O Ser… mil e uma coisas

QUANTOS SERES SOMOS DURANTE O DIA?

No corre-corre das mil e uma coisas para fazer, que tempo nos sobra para sermos quem somos?

Por vezes, e com a experiência dos meus atendimentos, verifico que muito do mal-estar que alguns dos pacientes apresentam tem que ver com o facto de já nem saberem quem são na essência. Desligaram-se da sua verdadeira personalidade.

Actualmente, a sociedade impele-nos a ser apenas uma resposta às suas exigências, às formas de estar e fazer incutidas por outras pessoas.

No fundo, durante apenas um dia, somos tantas coisas e traços de personalidade que, no final do dia, já nem sabemos se fomos um bom companheiro, progenitor, filho, amigo ou profissional.

AFINAL, QUEM E O QUE SOMOS?

A VIDA É PARA SER VIVIDA NA PRIMEIRA PESSOA. QUEM PODE SER PARA ALGUÉM, SE NÃO O É PRIMEIRO?

Somos a pessoa mais importante da nossa vida. Também a mim, a vida tem ensinado isso, contudo, continuamos viciados na adrenalina do carrossel de muito satisfazer as vontades e necessidades dos outros, muitas vezes por falta de amor-próprio.

Tenho pacientes que, desde que foram pais, perderam-se de si mesmos, perderam-se na relação, nas amizades, perderam-se no primeiro amor, que é amarmo-nos primeiro. Talvez por isso se sintam culpados quando precisam para si mesmos de uma hora, isto para aqueles que a conseguem “ter” e se permitem usufruir da mesma.

Como terapeuta, constato que as minhas consultas são os únicos momentos em que alguns pacientes estão realmente a cuidar de si. Geralmente pelas razões menos boas, pois quando me procuram, o desequilíbrio foi somatizado em patologia e transformado em dor, seja física ou emocional.

Viver 24 horas sobre 24 horas em prol de outros é matar a nossa individualidade.

Os filhos crescem e um dia terão a sua independência, os trabalhos mudam, os relacionamentos transformam-se e, nisto tudo, quem fomos verdadeiramente no decorrer da nossa existência?

Quantos não se permitem a ter um momento a sós consigo mesmos pela pressão de que estão a “perder tempo”, por pensarem que estão a ser egoístas não passando esse tempo com os filhos, família ou amigos? Pois bem, se não tivermos esse tempo para nós, dificilmente estaremos bem com quem nos rodeia e tudo começará a ser obrigação.

Dedicar 30 minutos por dia para estarmos fisicamente sós – a ler, escutar música, caminhar, meditar, fazer um hobby ou outra actividade que nos dá alegria – não é egoísmo, é sinónimo de sanidade mental.

Não fomos desenhados para estar constantemente rodeados de pessoas, em regime de confidência. Os maiores problemas que temos e muito do mal-estar que sentimos têm mais que ver com a forma como nos relacionamos uns com os outros do que com algo interno nosso. Todas as interacções com outras pessoas nos mudam e têm impacto em nós.

Aquele berro em tom de raspanete que demos ontem ao nosso filho poderia ser evitado se todos os dias tivéssemos um momento de tranquilidade interna, um momento a sós.

Ter outro ser humano dependente de nós é algo que nos transforma, que nos traz os medos, as noites em branco, a ansiedade e sensação de que tudo na sua vida devia ser perfeito. Queremos ser mais perfeitos e melhores que os nossos pais.

Contudo, essa ideia de perfeição só existe na nossa cabeça e sabemos intuitivamente que o que as crianças mais precisam durante os primeiros anos de vida é de amor incondicional, uma sensação de segurança, bons exemplos de vida e que a energia que as rodeia seja harmoniosa.

Se vivemos em constante stress e ansiedade de sermos mais e fazermos mais, será que conseguimos emitir essa boa vibração de que as crianças tanto precisam?

Deixo-vos com esta reflexão e com esta questão:

quando foi a última vez que realmente observaram o mar?

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Um abraço sonoro,
Rui de Almeida Cardoso (14 de Setembro 2017

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