A importância de Ser no abrandar

Nestes 4 anos como facilitador de som fui encontrando e conhecendo muitas pessoas.
O tema comum para virem a estes concertos era o stress, abrandar ou conhecerem-se.
Tem sido um enorme desafio ao longo destes anos manter-me criativo e renovar-me de modo a ir ao encontro ao que realmente vos leva a ir a estes concertos.

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No ultimo concerto que facilitei brinquei com a responsável do espaço que na verdade nem precisava de levar as taças para o trabalho que faço, sempre o soube, mas preciso de dominar um sistema, seja terapia de som, marketing, massagem ou outro; dominar uma técnica ou ferramenta e ter reconhecimento nisso é o que me faz ligar a outro ser.

Cada vez mais me sinto como Consultor em Desenvolvimento Humano, seja lá o que isso for, e é assim que vejo os concertos e terapias de grupo, uma oportunidade de passar o ainda pouco de conhecimento do que é isto de Ser-se Humano.

Há concertos ou melhor, na verdade são sempre terapias de grupo, em que falo mais, outras vezes menos. Houve concertos que sabia que o que levava as pessoas a irem aos concertos era aquilo que partilhava no final ou simplesmente o abraço.

Quem me segue há algum tempo já me sentiu de várias formas, mais alegre, mais sisudo, mais ou menos desbocado, mais expansivo ou introspectivo. Mais afável ou mais irritado. Com mais vitalidade, ou mais cansado e com dores. Todos temos as nossas.
Também já observaram que em todas estas minhas facetas continuo a ser EU, mas que todas as terapias realizadas foram sobre vocês.

Descobri a importância de saber abrandar, e como é importante para mim e para vocês, poder usufruir de uns momentos de fuga à rotina para poderem abrandar, relaxar e poderem por uns minutos serem a vossa essência.

Acredito que quando partilhamos o que sentimos, em e com verdade, essa poderá ressoar em outra pessoa.
Talvez seja isso que me leve a gostar tantos dos concertos e partilhas finais.
Sinto que geralmente depois dos concertos as pessoas falam da sua essência e não do seu condicionamento.

Grato e um abraço sonoro
Rui A Cardoso

A importância de psico-oncologia

O processo da doença oncológica envolve muitos factores que envolvem o próprio doente, assim como toda a estrutura humana que o rodeia.

Teremos que entender que pelo tipo de vida que hoje vivemos há uma maior probabilidade de mais pessoas perderem qualidade de vida, e a própria vida, para esta doença / patologia.

Entendo que, pelos processos de desenvolvimento da doença, uma equipa multidisciplinar que cuide e trate do doente de forma integral será sempre a melhor opção.

Dotar também os cuidadores, que nem sempre são os familiares, de ferramentas ligadas à psicologia, assim como outras terapêuticas será uma forma de ajudar o doente pela sua viagem em que terá o cancro como companheiro.

Dos processos estudados em relação à forma como o doente e familiares lidam com a nova realidade, por experiência própria dos meus atendimentos, verifico que também as terapias complementares / alternativas aliadas à medicina alopática, psicologia clínica e familiar, assim como psicoterapias darão uma maior avanço à área da psico-oncologia.

Como musicoterapeuta / terapeuta de som, socorro-me muitas vezes da literatura da psicologia e das patologias oncológicas para que possa tratar e cuidar de cada Ser / paciente tal como ele é, único.

Todos os dias somos Seres diferentes e um paciente com cancro, ou que esteja em remissão, lida ainda mais com essas mudanças da incerteza do que vai ser a cada novo dia.

Com a doença, na maior parte das vezes os papéis familiares sofrem alterações, e o que mais verifico é o esgotamento físico, psicológico e emocional dos familiares e cuidadores informais.

Contudo também assisto ao mesmo esgotamento e, por vezes até mesmo desalento, em profissionais de saúde que lidam com esta doença.

Aqui, sinto que a psicologia é a palavra de ordem para que toda a rede que “suporta” o cancro tenham mais saúde, a todos os níveis.

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Com o avanço científico e tecnológico tratamos e erradicamos cada vez mais com sucesso o cancro fisicamente, mas não tratamos igualmente bem e tão eficazmente as feridas psicológicas e emocionais que a doença deixa no doente e na sua rede de suporte.

 

É ténue a forma como a psicologia chega à verdadeira dor do doente, de alguém a quem foi “amputada” parte da vida.

Há também casos de sucesso e inspiração. Penso que por se sentirem cuidados e acolhidos muitos doentes, mais tarde usam essa aprendizagem e “compreensão” da doença para se tornarem psicólogos, coachs e demais, ajudando assim, quer profissionalmente ou pessoalmente, outros doentes partilhando a sua história de vida.

Nem todos os casos que conheci, terminaram com um “final feliz”, mas quase todos os pacientes com quem lidei e, que tiveram um “bom” acompanhamento psicológico e espiritual, a maioria teve mais qualidade de vida e paz até ao seu último suspiro.

Esta reflexão foi escrita no âmbito do curso de “Introdução à Psico-Oncologia” realizado em Abril de 2019

Um abraço sonoro
Rui Miguel Cardoso
Consultor, Terapeuta e Facilitador de Som

O Ser… mil e uma coisas

QUANTOS SERES SOMOS DURANTE O DIA?

No corre-corre das mil e uma coisas para fazer, que tempo nos sobra para sermos quem somos?

Por vezes, e com a experiência dos meus atendimentos, verifico que muito do mal-estar que alguns dos pacientes apresentam tem que ver com o facto de já nem saberem quem são na essência. Desligaram-se da sua verdadeira personalidade.

Actualmente, a sociedade impele-nos a ser apenas uma resposta às suas exigências, às formas de estar e fazer incutidas por outras pessoas.

No fundo, durante apenas um dia, somos tantas coisas e traços de personalidade que, no final do dia, já nem sabemos se fomos um bom companheiro, progenitor, filho, amigo ou profissional.

AFINAL, QUEM E O QUE SOMOS?

A VIDA É PARA SER VIVIDA NA PRIMEIRA PESSOA. QUEM PODE SER PARA ALGUÉM, SE NÃO O É PRIMEIRO?

Somos a pessoa mais importante da nossa vida. Também a mim, a vida tem ensinado isso, contudo, continuamos viciados na adrenalina do carrossel de muito satisfazer as vontades e necessidades dos outros, muitas vezes por falta de amor-próprio.

Tenho pacientes que, desde que foram pais, perderam-se de si mesmos, perderam-se na relação, nas amizades, perderam-se no primeiro amor, que é amarmo-nos primeiro. Talvez por isso se sintam culpados quando precisam para si mesmos de uma hora, isto para aqueles que a conseguem “ter” e se permitem usufruir da mesma.

Como terapeuta, constato que as minhas consultas são os únicos momentos em que alguns pacientes estão realmente a cuidar de si. Geralmente pelas razões menos boas, pois quando me procuram, o desequilíbrio foi somatizado em patologia e transformado em dor, seja física ou emocional.

Viver 24 horas sobre 24 horas em prol de outros é matar a nossa individualidade.

Os filhos crescem e um dia terão a sua independência, os trabalhos mudam, os relacionamentos transformam-se e, nisto tudo, quem fomos verdadeiramente no decorrer da nossa existência?

Quantos não se permitem a ter um momento a sós consigo mesmos pela pressão de que estão a “perder tempo”, por pensarem que estão a ser egoístas não passando esse tempo com os filhos, família ou amigos? Pois bem, se não tivermos esse tempo para nós, dificilmente estaremos bem com quem nos rodeia e tudo começará a ser obrigação.

Dedicar 30 minutos por dia para estarmos fisicamente sós – a ler, escutar música, caminhar, meditar, fazer um hobby ou outra actividade que nos dá alegria – não é egoísmo, é sinónimo de sanidade mental.

Não fomos desenhados para estar constantemente rodeados de pessoas, em regime de confidência. Os maiores problemas que temos e muito do mal-estar que sentimos têm mais que ver com a forma como nos relacionamos uns com os outros do que com algo interno nosso. Todas as interacções com outras pessoas nos mudam e têm impacto em nós.

Aquele berro em tom de raspanete que demos ontem ao nosso filho poderia ser evitado se todos os dias tivéssemos um momento de tranquilidade interna, um momento a sós.

Ter outro ser humano dependente de nós é algo que nos transforma, que nos traz os medos, as noites em branco, a ansiedade e sensação de que tudo na sua vida devia ser perfeito. Queremos ser mais perfeitos e melhores que os nossos pais.

Contudo, essa ideia de perfeição só existe na nossa cabeça e sabemos intuitivamente que o que as crianças mais precisam durante os primeiros anos de vida é de amor incondicional, uma sensação de segurança, bons exemplos de vida e que a energia que as rodeia seja harmoniosa.

Se vivemos em constante stress e ansiedade de sermos mais e fazermos mais, será que conseguimos emitir essa boa vibração de que as crianças tanto precisam?

Deixo-vos com esta reflexão e com esta questão:

quando foi a última vez que realmente observaram o mar?

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Um abraço sonoro,
Rui de Almeida Cardoso (14 de Setembro 2017